quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Antes de colocar comida para uma gata preta

Todas as palavras estavam flutuando em uma dimensão de cor vinho que só eu via. Eu tentava pescar todas e formar uma teia complexa pra confundir e mostrar a profundidade dos meus nós, mas tudo o que era derramado era um mero copo d'água. Ao lado, todas as cápsulas que eu jurei que não ia mais engolir e que ia trocar por um tratamento alternativo a base de frutas frescas e todo o afago do universo na minha nuca.

Jantei três vezes na última noite. Nas três eu comi solidão. Na primeira eu tentei imaginar que você estava sentado ali reclamando de alguma coisa que eu tinha feito de um jeito diferente de como você faria. Na segunda vez você gostava de tudo e dizia que dispensava a sobremesa, me puxava pela cintura, colava a boca no meu ouvido e sussurrava áspero como o chão que eu tinha colocado uma música tão doce que podíamos ser diagnosticados com diabetes a qualquer momento e ficarmos ainda mais cegos. Na terceira vez o jantar estava pronto e você tocava o interfone com defeito dizendo que a gente ia jantar fora, e eu ia.

Coloquei tudo na balança e o lado que ficava o nosso silêncio pesava mais do que o rabo do diabo. E este ria pra mim mostrando a gengiva e os dentes do fundo. Ele ria porque sabia que eu queria cortar as mãos fora, porque não sabia o que fazer com elas quando você estava presente e eu só conseguia formular frases tão complexas quanto "A borboleta é bonita."

Todas as palavras estavam flutuando nos feixes de luz que entravam pela persiana da janela que impedia qualquer inseto de entrar. Ao lado os remédios que eu não queria tomar e um copo de água que havia dormido ali - provavelmente dormido mais do que eu naquela noite. Eu não sabia nem o que ia comer no café da manhã, já que mascar a ansiedade não satisfazia mais as ânsias. Sentei na beira da cama tentando lembrar o porquê dos romanos antigos acharem que havia mal agouro em tudo que envolvia o lado esquerdo, como a direção do vôo dos pássaros ou pra onde estão viradas as cavidades do meu coração - em todo caso acho que eles estavam certos. Deito de novo do lado contrário, tentando bagunçar meu cabelo anti-desobediência-civil e encaro, a uma distância segura, o celular de onde apaguei seu número pra ficar menos tentada pelo diabo a te procurar nos meus dias blues. 

Hoje o céu amanheceu amarelo.

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