quarta-feira, 7 de agosto de 2013

amasso

Eu era um copo de sangue talhando e transbordando. O fluxo das notícias me causou uma hemorragia no nariz que eu levei horas pra estancar. Agora no chão, além das marcas de queimado, temos marcas de sangue - um perito criminal teria orgasmos aqui. Eu, o assassino da minha paz. Matei e torturei. Saí pela porta afobado e esqueci de trancar, como sempre, deixei minha térmica de café pro porteiro, que tiraria uma caneca pra ele enquanto eu iria até a padaria e depois ele me enganaria dizendo que eu era o filho que não teve e que o café estava ótimo. Não trouxe pão. Comprei cervejas e um maço de cigarro - eu nem fumo. Na minha raiva achei que fumaria o maço inteiro numa tacada. Acendi o cigarro e o que fiz foi brincar de soltar fumaça e te ver dançando nela e sorrindo aquele timbre de risada que dava pra alguém perto de mim, me olhando de soslaio e dizendo com os cílios que essas coisas iam além do meu entendimento banal. Desejei que você virasse cinza. Baforei outra vez e a rajada de vento te jogou no meu nariz me sufocando como sempre fazia. Na terceira baforada eu te joguei pela janela, e quando você tentou voltar eu fechei o vidro. Abri a janela de novo pro seu velório. Soltei fogos de artifício em formas das cinzas em brasa que caiam. "Respeito, senhor, isso é uma solenidade." - disse a voz que imaginei ser de alguém que não te conhecesse pra exigir respeito dessa forma. Acendi todos os cigarros e os coloquei um ao lado do outro. Deixei que se fumassem e pranteassem suas cinzas por ti. Era bonito de ver isso no escuro, mas você não merecia uma foto. Coloquei Debussy pra tocar e ele se sentiu ofendido - desliguei rápido. Cuspi em um papel e terminei de apagar cada uma das suas carpideiras que já estavam cansadas. Enterrei-as também, mais nobremente, nas águas da privada, depois de mijar em cima. Meu quarto cheirava suas cinzas, mas isso ia passar a próxima vez que uma mulher entrasse aqui com um novo perfume - nem que essa mulher fosse a diarista de toda sexta-feira. Nesse drama todo a cerveja esquentou, a noite esfriou, mas eu sempre tenho um casaco quente que me abraça enquanto a lua chama a rua de vadia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu blah blah blah aqui: