segunda-feira, 15 de julho de 2013

Vida, morte e alguma outra nota

     "Nem que você beba o mar inteiro vai curar sua sede, moleque!" - gritava um velho sujo e descalço pra um outro sujo apenas um pouco menos velho que ele. Enquanto eles riam da própria desgraça eu acompanhava sentado, uns 10 metros de distância, mas era cedo demais pra ter vida na cidade e eu podia ouvir as vozes deles como se eles estivessem ao meu lado. Esbocei uma reclamação mental, mas a amassei e joguei fora quando lembrei que ao menos nessa distância eu não sentia cheiro nenhum do pudim de cachaça.
      Eu tinha quinhentos km de Saramago pela frente e começar com um "No dia seguinte ninguém morreu. " me dava mais impressão que tudo estava morrendo. Uma gargalhada irrompeu o ar "Pelo menos isso, ninguém vai no meu velório... que seja! Não vou nem saber quem não foi... pelo menos não preciso ir no velório de ninguém. Olha lá a cadela Severina... vem cá Severina!" Nas últimas semanas eu havia estado em 3 velórios e em todos eles eu pensava no quanto a morte foi marginalizada.
     Eu, que nasci católico, porém não apostólico romano, pensava no quanto eu teria tanto pavor quanto um judeu ao arrumar um morto pro seu velório. Então pagamos alguém pra trocar as roupas dele, pra maquiar, ajeitar as flores, carregar o caixão, jogar na vala e cobrir de terra. Meus olhos estão tão cansados que eu pagaria alguém pra chorar por mim, será que aceitam cartão?
     A cidade ia acordando, eu lamentava porque o silêncio diminuía, mas lembrava que com isso o café da esquina também abria. O café em casa é 24h, mas eu sempre saía pra procurá-lo em outros lugares que eu sabia que ele não estaria. Me arrastei pra fora do banco gelado e devolvi o marcador do livro ao lugar devido - a primeira página.
     "Ô moço, se você tiver algum pão velho, traz pra Severina... meu gosto não é tão refinado, mas Severina tá tão magrinha..." - era o mais velho, o que falava mais e mais alto, o outro olhava as pernas de uma mocinha uniformizada que acabava de passar. Fiquei olhando Severina e o velho brincando, ela havia pego um cobertor dele e o arrastava pelo gramado e ele ia atrás sem força de tanto rir dos olés que levava. O riso é riso em qualquer língua, se um chinês passasse por aqui agora ele saberia o quanto estávamos contentes e por motivo algum.
     Me despedi com a promessa de voltar com algo comestível e me virei pra esperar o sinal fechar pra que eu pudesse atravessar.
    O sinal não fechou, Severina correu para a rua e um carro a pegou.

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