sábado, 28 de agosto de 2010

Pônciá Vicêncio

   
     Dormiu. E foi vó Rita que veio no seu último sono-sonho ali na favela.
     Vó Rita entrou devagarinho no quarto. De repente. Calada. Ela, que não tinha voz calada nunca, pois se não estava falando, cantando estava; que nunca chegava de repente, pois se sabia de longe que vó Rita estava chegando. E eis que ela chegou pé ante pé. Grandona, gorda, desajeitada. Abriu a blusa e, através do negro luzidio e transparente de sua pele, via-se lá dentro um coração enorme.
     E a cada batida do coração de vó Rita nasciam os homens.
     Todos os homens: negros, brancos, azuis, amarelos, cor de rosa, descoloridos... Do coração enorme, grande de vó Rita, nascia a humanidade inteira.

{por Conceição Evaristo}

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