sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

81444380

"Você não rendeu um romance, mas rendeu boas linhas."

Fazia mais de duas semanas que eu trazia matutando na cabeça. Rabiscava nas margens do livro que eu lia, no guardanapo e era a maior mentira dos últimos tempos. Eu sabia que nunca conseguiria escrever um romance de mais de 100 páginas com esse personagem, mas eu gostava de cada nuance que ele tinha na sombra da minha caneta. A editora me perguntava quando o próximo livro estaria pronto, ou o público esqueceria de mim. 
Eu já havia escrito as 99 páginas e saía pra procurar a página perdida que se desgarrara do bando, sabe Deus quando. Eu queria encontrar essa página morta, devorada pelos lobos e então eu não teria mais nada a fazer com ela a não ser um holocausto. Não se preocupe, meu bem, sua morte vai ser bonita, você vai viver pra sempre. 
Eu simplesmente não sabia como terminar aquilo. Eu podia apenas surtar, dizer que não ia dar certo, que não combinamos, não somos compatíveis, ouvimos tipos de músicas diferentes e que eu nem percebo quando suas músicas começam ou terminam -porque na verdade sempre estamos ocupados respirando nossos perfumes de gente. Eu podia dizer que você na verdade não me amava, só  amava uma imagem que você mesmo tinha criado de mim -e então você me forçaria olhar o espelho do elevador quando me abraçasse e eu seria obrigada a me ver satisfeita ali. Eu podia simplesmente queimar as pontes e trocar de cidade, vou pro Rio, você não gosta de lá porque diz que lá é quente, mas aqui também faz muito calor no verão -e no fundo eu sei que não conseguiria passar de Florianópolis, porque eu acho que fico muito mais bonita no inverno, ao menos com menos sardas, e não faz tanto frio quando você está na sala da minha casa com minhas pernas no seu colo, acariciando meu moletom surrado enquanto eu passo o marca-texto em alguma página amassada.

Não consegui terminar a trama, peguei o celular e pedi pra você me buscar porque não conseguiria dormir na cama cheia dos meus receios.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Antes de colocar comida para uma gata preta

Todas as palavras estavam flutuando em uma dimensão de cor vinho que só eu via. Eu tentava pescar todas e formar uma teia complexa pra confundir e mostrar a profundidade dos meus nós, mas tudo o que era derramado era um mero copo d'água. Ao lado, todas as cápsulas que eu jurei que não ia mais engolir e que ia trocar por um tratamento alternativo a base de frutas frescas e todo o afago do universo na minha nuca.

Jantei três vezes na última noite. Nas três eu comi solidão. Na primeira eu tentei imaginar que você estava sentado ali reclamando de alguma coisa que eu tinha feito de um jeito diferente de como você faria. Na segunda vez você gostava de tudo e dizia que dispensava a sobremesa, me puxava pela cintura, colava a boca no meu ouvido e sussurrava áspero como o chão que eu tinha colocado uma música tão doce que podíamos ser diagnosticados com diabetes a qualquer momento e ficarmos ainda mais cegos. Na terceira vez o jantar estava pronto e você tocava o interfone com defeito dizendo que a gente ia jantar fora, e eu ia.

Coloquei tudo na balança e o lado que ficava o nosso silêncio pesava mais do que o rabo do diabo. E este ria pra mim mostrando a gengiva e os dentes do fundo. Ele ria porque sabia que eu queria cortar as mãos fora, porque não sabia o que fazer com elas quando você estava presente e eu só conseguia formular frases tão complexas quanto "A borboleta é bonita."

Todas as palavras estavam flutuando nos feixes de luz que entravam pela persiana da janela que impedia qualquer inseto de entrar. Ao lado os remédios que eu não queria tomar e um copo de água que havia dormido ali - provavelmente dormido mais do que eu naquela noite. Eu não sabia nem o que ia comer no café da manhã, já que mascar a ansiedade não satisfazia mais as ânsias. Sentei na beira da cama tentando lembrar o porquê dos romanos antigos acharem que havia mal agouro em tudo que envolvia o lado esquerdo, como a direção do vôo dos pássaros ou pra onde estão viradas as cavidades do meu coração - em todo caso acho que eles estavam certos. Deito de novo do lado contrário, tentando bagunçar meu cabelo anti-desobediência-civil e encaro, a uma distância segura, o celular de onde apaguei seu número pra ficar menos tentada pelo diabo a te procurar nos meus dias blues. 

Hoje o céu amanheceu amarelo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A noite escorria pelas paredes do apartamento com tanta verdade como o gelo na minha boca.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Prefira a espiritualidade etérea e a a ternura, pois estas fazem as outras coisas reduzir-se a uma paródia estéril do que poderia ser. Tudo. Tudo o que não volta ao pó e transcende. É o sentir um fôlego ao quase se afogar, só que pelo outro. O fôlego tão seu, sua gasolina a ativar os sentidos que alcançam o outro. Graça. Somos a pólvora e a faísca que sai do aço dentado de um isqueiro. Mas sem o outro somos mera lenha verde e molhada da chuva.

domingo, 1 de dezembro de 2013

sobre as não-vias-de-fato

eu quis exorcizar seus fantasmas tantas vezes que acabei por me confundir com um deles os meus. acabei por me tornar fantasma. outras mãos me abraçavam e eu sem sentir abraçava de volta porque deveria. beijava de volta porque deveria. tirava as roupas da alma porque precisava. porque não encontrava outra forma de ser mais vulnerável do que nu. porque ser vulnerável muitas vezes é mais prático. o sangue sai mais facilmente da pele que da roupa.

desci pra jogar no lixo o vinho barato que você deixou aqui, as flores que se secaram e as roupas que eu vestia a última vez que te encontrei. na volta deixei minhas tripas na escada.

quando eu não mais quiser exorcizar seus fantasmas deixarei de ser um.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Daqui trinta e quatro dias é nosso aniversário de um ano de nada. Somos nada. O nada batendo no peito e na janela quando você não vem. O nada a segurar pela minha nuca e me beijar a testa. O nada a não atender o telefone porque dormia. O nada a atar as mãos após a boca estilhaçar feito vidro no chão. O nada que faz o sol nascer no leste.

O nada a encher meu copo de cerveja quente e manter meu coração gelado.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Dos espaços vagos que desenrolam na mesa do jantar, o diálogo truncado das cartas código morse, zenit polar e todas as máximas que terminam presas nos espaços alveolar do céu e do mar da boca. Acorda de manhã, boca de hortelã, mesa posta pro café sem pão - vitamina de banana verde pra você. Bebe tudo até o fim, só pra ter certeza que você gosta de mim. No almoço não está e o coração duro fica sóbrio e a palpitar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Antes do portão estar aberto ele ventava e bagunçava meu cabelo, do vento da sua flauta em meus ouvidos varais e bagunçava minhas ideias e ideais. cruzo os braços ou sento com as mãos embaixo das coxas pra me conter de arpar as mãos em seus cabelos e fazer deles o porto dos nós dos meus dedos. ser nós. o sereno caiu quando você estava no fundo do mar, porque não sei mais quantos por cento do oceano é inexplorado e seu olho castanho e cabelo que quer ser grisalho é tão bonito e eu volto pra superfície desse mar que explode nas pedras e o sereno desenhou a gente. não, sereno, eu tô com pressa. "se você ganhar a partida de dama o 577 sai dali", repetia aquela moça de voz e boca enrugada de bico de fumante. comi um prato de vontade e todas as suas damas. Então, que ele me leve leve. ou arraste meus pesares olhos ao som de um lamento colombiano. 

antes do portão estar aberto eu me finquei na pedra do á pra não mais saltar.

ar
POA
dor

ar
pô!
a dor

arpo
sem
dor

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sorria satisfeito porque o estômago dela doía. Pelo paradoxo instaurado, pelo falso sadismo consentido. 
A aposta, isso tudo, não passa de um monte de b

acon frito.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

gente indie / indie gente / indie, gente

Era um sonho de beira de calçada. Calçada de garoa. Era um sonho barulhento, cheio de motor e fumaça de escapamento. Nessa época se confundia qualquer batidinha de pés com um convite pra dançar. "Moça, acho que você deixou cair isso.." e ele, um cachorro sarnento falante, entrega para a criatura cujo nariz quase tocava os céus, um pedaço de papel ou plástico que já estava amassado. Que lixo de sonho. Que lixo! Jogaram lixo no meu sonho. Ela respondeu com seus olhos de vidro fumê silenciosos e aumentou o compasso dos pés. Ele completava 210 anos e ainda tinha ingenuidade de 35. Aos 49 anos lhe deram ingressos da primeira fila, todos os dias ele tinha de estar lá. O espetáculo começava na hora santa e terminava antes do sino da matriz. Uma ópera. Mas os roncos do seu estômago adormecido incomodavam a platéia de fora e a que morava na sua cartola. Se você perguntar em libras a alguém se poderá lhe fazer uma visita mais tarde, ela dirá que sim * fecha-se a mão e dobra o punho para cima e para baixo em sinal afirmativo * depois ela fará o sinal de "vivo" e depois de "casa".

Quem vive pela rua e morre pela rua.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

calafrio
cala frio
"Calma, filho!"

-e morreram de hipotermia.

amasso

Eu era um copo de sangue talhando e transbordando. O fluxo das notícias me causou uma hemorragia no nariz que eu levei horas pra estancar. Agora no chão, além das marcas de queimado, temos marcas de sangue - um perito criminal teria orgasmos aqui. Eu, o assassino da minha paz. Matei e torturei. Saí pela porta afobado e esqueci de trancar, como sempre, deixei minha térmica de café pro porteiro, que tiraria uma caneca pra ele enquanto eu iria até a padaria e depois ele me enganaria dizendo que eu era o filho que não teve e que o café estava ótimo. Não trouxe pão. Comprei cervejas e um maço de cigarro - eu nem fumo. Na minha raiva achei que fumaria o maço inteiro numa tacada. Acendi o cigarro e o que fiz foi brincar de soltar fumaça e te ver dançando nela e sorrindo aquele timbre de risada que dava pra alguém perto de mim, me olhando de soslaio e dizendo com os cílios que essas coisas iam além do meu entendimento banal. Desejei que você virasse cinza. Baforei outra vez e a rajada de vento te jogou no meu nariz me sufocando como sempre fazia. Na terceira baforada eu te joguei pela janela, e quando você tentou voltar eu fechei o vidro. Abri a janela de novo pro seu velório. Soltei fogos de artifício em formas das cinzas em brasa que caiam. "Respeito, senhor, isso é uma solenidade." - disse a voz que imaginei ser de alguém que não te conhecesse pra exigir respeito dessa forma. Acendi todos os cigarros e os coloquei um ao lado do outro. Deixei que se fumassem e pranteassem suas cinzas por ti. Era bonito de ver isso no escuro, mas você não merecia uma foto. Coloquei Debussy pra tocar e ele se sentiu ofendido - desliguei rápido. Cuspi em um papel e terminei de apagar cada uma das suas carpideiras que já estavam cansadas. Enterrei-as também, mais nobremente, nas águas da privada, depois de mijar em cima. Meu quarto cheirava suas cinzas, mas isso ia passar a próxima vez que uma mulher entrasse aqui com um novo perfume - nem que essa mulher fosse a diarista de toda sexta-feira. Nesse drama todo a cerveja esquentou, a noite esfriou, mas eu sempre tenho um casaco quente que me abraça enquanto a lua chama a rua de vadia.

domingo, 4 de agosto de 2013

Tinha mais cerveja no chão do que caberia em qualquer copo. corpo. Toda alma isenta de cais caos que vinde até nós, e a mesa ficou vazia. Ok, tiramos a mesa, criamos diques. De corpos humanos. Nos contemos, contenção, com tensão. Sem tesão. Na estrada um caminhoneiro recebe informes de que a neblina está densa e a pista molhada de geada, mais a frente, e que ele deve tomar cuidado nas curvas. Antes de pedirem seu nome, identidade, e te darem o cartão consumação da casa ninguém te informa. A paz interior, a paz litoral, a paz da serra - montani semper liberi. Montani semper liberi. Montani semper liberi. Tinha mais cerveja na sua cara e em seu cabelo do que no copo. Montani semper liberi. A saída é logo ali. Montani semper liberi. Débito ou crédito? Montani semper liberi. A porta. Montani semper liberi. A rua. Montani semper liberi. Tira a blusa molhada ali mesmo, bota essa jaqueta, tira esse sapato.

Libertas ainda que sera tamem.

terça-feira, 30 de julho de 2013

2oses

Ajusto a luz pra você enxergar o menos possível. Menos da minha cara cansada da semana, menos do meu trabalho, menos da minha maquiagem mal feita na pressa de ir abrir a porta. Desci quatro andares com a fúria de um lobo que passou a semana mastigando a fome. E subi quatro andares no ritmo da valsa, mas ao som de um jazz arrastado. Quatro afagos e três passos, ou menos. 

Acho que a luz foi planejada pra que eu pudesse enxergar o menos possível. É bom, já que agora de perto eu não preciso imaginar e o tato faz todo o trabalho. Os quatro andares pareciam que iam levar metade da minha vida pra chegar até o quarto. Tinha a boca na fonte e a sede parecia não cessar, sempre tinha mais, e sempre tinha mais da fonte. Que se foda a música que tocava.